
Strix
Strix · Ave Noturna — Pássaro vampírico da mitologia antiga
Uma ave vampirica da mitologia romana e grega, ave de rapina noturna que se introduz nos quartos de recem-nascidos adormecidos para lhes beber o sangue e as entranhas. Descrita ora como bruxa transformada em ave, ora como demonio nascido em forma de ave. O relato canonico e o de Ovidio, 'Fastos' 6.131-168 (cerca de 8 d.C.), que a pinta 'com cabeca grande, olhos fixos, bico apto a pilhagem, plumagem cinzenta e garras curvas', e descreve o ritual da deusa Carna com ramos de espinheiro-alvar para proteger o recem-nascido Procas. Etimologicamente, a figura e a ancestral direta das tradicoes vampiricas europeias: o strigoi romeno e transilvano, a strega italiana ('bruxa') e o stryge frances descendem todos do latim strix.
Origem
A mais antiga atestacao direta esta em Plauto, 'Pseudolus' 819-820 (cerca de 191 a.C.), em que a comedia romana ja toma o nome como terror conhecido; o termo deriva do verbo grego 'strizein', 'gritar como coisa que se rasga' (Liddell-Scott-Jones, 'Greek-English Lexicon', 1843). O relato canonico mais detalhado e Ovidio, 'Fastos' 6.131-168 (cerca de 8 d.C.), parte da etiologia da festa de Carna em 1 de junho (Kalendae Iuniae): um voo de striges se enfia no quarto do principe Procas para lhe beber o sangue, ate que a deusa Carna pendura na porta um ramo de espinheiro-alvar (virga albae spinae) e um dente de alho, e deposita no limiar as entranhas de um leitao branco; as striges se retiram. Ovidio fixa a aparencia canonica: cabeca grande, olhos fixos, bico apto a pilhagem, plumagem cinzenta, garras curvas. Petronio, 'Satiricon' 63 (cerca de 60 d.C.), recolhe no banquete de Trimalcao o testemunho de um escravo segundo o qual uma strix-bruxa trocou uma crianca morta por um feixe de palha. Plinio, 'Naturalis Historia' 11.232 (cerca de 77 d.C.), relata que a strix verte leite na boca dos recem-nascidos para mata-los. Antoninus Liberalis, 'Metamorfoses' 21 (seculo II d.C.), conserva o mito dos dois filhos de Polifonte, transformados pelos deuses em aves do tipo strix. O ritual de Carna com espinheiro, alho e entranhas de leitao no 1 de junho ainda vivia em familias romanas urbanas no tempo de Ovidio.
Características
- Cabeca grande, olhos fixos, bico apto a pilhagem, plumagem cinzenta, garras curvas (Ovidio, 'Fastos' 6.135-138)
- Noturna; voa em silencio e no escuro, esgueira-se aos quartos de recem-nascidos para lhes beber o sangue e as entranhas
- Bruxa transformada em ave (Petronio) ou ser humano transformado por castigo divino em ave (Antoninus Liberalis) — duas tradicoes coexistem
- Um grito dilacerante; o proprio nome 'strix' o nomeia por onomatopeia
- Sensivel ao espinheiro-alvar (virga albae spinae), ao alho e as entranhas de um leitao branco (Ovidio, 'Fastos' 6.155-168)
Histórias
Na pratica domestica romana, a strix foi a forma supersticiosa do medo a morte infantil, e o ritual da festa de Carna em 1 de junho — ramos de espinheiro nos pilares da cama, alho ao lado do berco, entranhas de leitao branco no limiar, em honra a deusa — era a resposta materna codificada. A partir de Petronio, a identificacao entre bruxa e strix fica fixa na literatura romana, e a Igreja latina medieval a herda: no 'Decretum' de Burcardo de Worms, livro 19 (cerca de 1008-12), o plural 'strigae' nomeia tanto a bruxa quanto o demonio chupador de sangue. Desse tronco a figura passou a Europa oriental como strigoi romeno, italiano strega e frances stryge, e entrou na tradicao vampirica anglofona via 'Dracula' de Bram Stoker (Constable & Co., 1897); as notas de Stoker (Bram Stoker Notes, BSL/03/56, Victoria and Albert Museum, Londres; edicao Elizabeth Miller, 'Bram Stoker's Notes for Dracula', McFarland, 2008) citam a palavra 'strigoi' diretamente de 'The Land Beyond the Forest' de Emily Gerard (William Blackwood, 1888). O 'Volo's Guide to Monsters' de Wizards of the Coast (Dungeons & Dragons quinta edicao, 2016) reintroduz a strix como pequena ave noturna vampirica de Desafio um oitavo, e 'Vampire: The Requiem' da White Wolf (2004) deu o nome a um cla de horror.
Fraqueza
Ovidio, 'Fastos' 6.155-168, fixa tres fraquezas: um ramo de espinheiro-alvar (virga albae spinae) nos pilares da cama e na janela mantem a strix do lado de fora; alho ao lado do berco a expulsa pelo cheiro; as entranhas de um leitao branco no limiar, sob a protecao de Carna, lhe vedam a entrada. Em Petronio, 'Satiricon' 63, a bruxa-strix e expulsa por um grito forte e pela enunciacao de seu nome — reconhece-la e decisivo. Na tradicao strigoi posterior, codificada por Emily Gerard em 'The Land Beyond the Forest' (1888) e retomada por Bram Stoker, somam-se a cruz, a agua benta e a luz direta do sol. Na quinta edicao de D&D a strix e Desafio um oitavo, bestia pequena com Sensibilidade a luz solar e vulnerabilidade ao fogo.
Significado cultural
A strix e a forma supersticiosa que o medo da morte infantil tomou na Roma antiga, e o ritual do espinheiro-alvar da festa de Carna em 1 de junho foi sua liturgia materna. Giuseppe Pitre, em 'Usi e costumi credenze e pregiudizi del popolo siciliano' (Forni, 1875), registrou a sobrevivencia paralela da strega protetora do recem-nascido na Sicilia rural do seculo XIX. O descendente etimologico mais influente e o strigoi romeno: na Europa oriental ortodoxa, a alma de um vivo pode tornar-se, pela morte, demonio chupador de sangue; a escritora britanica Emily Gerard, apos sua estada transilvana de 1885, introduziu a palavra no ingles em 'The Land Beyond the Forest' (William Blackwood, 1888). Bram Stoker consultou Gerard na biblioteca do Lyceum Theatre de Londres entre 1890 e 1895 ao preparar o canone vampirico transilvano de 'Dracula' (Constable & Co., 1897), como atesta o caderno BSL/03/56 no Victoria and Albert Museum. Na cultura popular atual, 'Vampire: The Requiem' da White Wolf (2004) deu o nome ao cla Strix, e a palavra continua viva em videogames e RPGs de horror.
Na cultura pop
Plauto, Pseudolus 819-820 (cerca de 191 a.C.) — atestacao direta mais antiga na comedia romanaOvidio, Fastos 6.131-168 (cerca de 8 d.C.) — ritual de Carna e aparencia canonicaPetronio, Satiricon 63 (cerca de 60 d.C.) — banquete de Trimalcao e o testemunho sobre a bruxa-strixPlinio, Naturalis Historia 11.232 (cerca de 77 d.C.) — strix como envenenadora de recem-nascidos com leiteAntoninus Liberalis, Metamorfoses 21 (seculo II d.C.) — os dois filhos de Polifonte transformadosBurcardo de Worms, Decretum livro 19 (cerca de 1008-12) — uso eclesiastico medieval de strigaeEmily Gerard, The Land Beyond the Forest (William Blackwood, Edimburgo, 1888) — strigoi entra no inglesBram Stoker, Dracula (Constable & Co., 1897) — canone vampirico transilvanoWhite Wolf, Vampire: The Requiem (2004) — cla StrixWizards of the Coast, Volo's Guide to Monsters (D&D 5.ª ed., 2016) — strix jogavel
Curiosidades
- O ritual de Carna com espinheiro, alho e entranhas de leitao no 1 de junho (Kalendae Iuniae) sobreviveu em familias plebeias da cidade de Roma ate o tempo de Ovidio; o levantamento de Pitre sobre o folclore siciliano (1875) mostra que familias rurais ainda penduravam espinheiro sobre o berco no 1 de junho em pleno seculo XIX.
- Carl Linnaeus escolheu o latim 'strix' como nome de genero das corujas tipicas na decima edicao de Systema Naturae (1758), de modo que o genero zoologico moderno Strix — com vinte e uma especies, entre as quais a coruja-lapona Strix nebulosa — descende da mesma palavra que nomeou o monstro de Ovidio.
- As notas de Bram Stoker para Dracula no Victoria and Albert Museum (BSL/03/56), editadas por Elizabeth Miller em 'Bram Stoker's Notes for Dracula' (McFarland, 2008), contem a grafia 'Strigoi' anotada por Stoker com a pronuncia 'stree-goy'; a palavra vem diretamente de Gerard 1888.
- Em Antoninus Liberalis, 'Metamorfoses' 21, os dois filhos de Polifonte sao transformados pelos deuses em corujao real, abutre-coruja e strix — tres nomes de aves que Brian Davies, em 'Greek Bird Names' (1996), liga ao mesmo verbo grego que significa 'gritar dilacerante'.
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