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Onryo

Onryo · O fantasma vingador japonês — Um espectro amaldiçoante retornado em rancor

O Onryo (japones onryo, 'espirito vingador') e o fantasma vingador japones nascido da injustiça e profundo ressentimento, causando calamidade aos vivos. Os kanji combinam on ('rancor, ressentimento') com ryo ('espirito'), dando 'espirito de rancor'. A iconografia canonica e uma shinishozoku branca (veste funeraria), longos cabelos negros emaranhados, um rosto palido e olhos cheios de ressentimento. A caracteristica definidora que distingue o onryo de outros fantasmas do leste asiatico e que a maldiçao se propaga nao apenas para aqueles que prejudicaram o espirito, mas para transeuntes nao relacionados. A origem iconografica esta no culto goryo do periodo Heian do seculo IX, no qual os mortos politicamente derrotados retornavam como espiritos vingadores causando desastres naturais e pragas; o caso canonico e a deificaçao de Sugawara no Michizane (845-903). A peça de kabuki de Tsuruya Nanboku IV Tokaido Yotsuya Kaidan (1825), apresentando a onryo feminina Oiwa, fixou o canon visual, e o canon moderno do J-horror do romance Ring de Suzuki Koji (1991), do filme Ring de Nakata Hideo (1998) e de Ju-on de Shimizu Takashi (2002) globalizou a figura.

Origem

A origem iconografica do onryo esta no culto goryo (espiritos vingadores) do periodo Heian do seculo IX, no qual se acreditava que os mortos politicamente derrotados retornavam como espiritos vingadores causando desastres naturais, pragas e extinçoes familiares. O caso canonico e o politico Sugawara no Michizane (845-903), rebaixado pelo cla Fujiwara e morrendo no exilio em Dazaifu; sua identificaçao subsequente como causa de desastres naturais levou em 919 ao estabelecimento do santuario Tenmangu em Kyoto e a canonizaçao formal do rito de aplacamento goryo. A cerimonia Goryo-e, registrada pela primeira vez sob o imperador Saga em 842, tornou-se o rito padrao de aplacamento do onryo. O Conto dos Heike (Heike Monogatari, seculo XIII) levou o motivo do espirito vingador ao Japao medieval atraves das figuras do cla Taira derrotado. O canon kabuki da era Edo das quatro grandes peças de fantasmas — Tokaido Yotsuya Kaidan de Tsuruya Nanboku IV (1825) com Oiwa, Bancho Sarayashiki com Okiku, Botan Doro com Otsuyu e Kasanegafuchi com Kasane — fixou o canon visual da onryo feminina em vestes funerarias brancas com cabelos emaranhados.

Características

  • Shinishozoku branca (veste funeraria japonesa) e longos cabelos negros emaranhados
  • Rosto palido com olhos cheios de ressentimento
  • Sem pes na iconografia classica do kabuki e do ukiyo-e; com pes no J-horror moderno
  • A maldiçao se propaga nao apenas para aqueles que prejudicaram o espirito, mas para transeuntes nao relacionados
  • J-horror moderno: a maldiçao se propaga atraves de midia como televisao e fita de video
  • Aplacado apenas pela resoluçao da queixa ou por ritos formais de aplacamento

Histórias

O canon visual do onryo foi estabelecido no palco kabuki da era Edo. Tokaido Yotsuya Kaidan de Tsuruya Nanboku IV, estreado no teatro Nakamura-za em julho de 1825, fez da veste funeraria branca de Oiwa, cabelos emaranhados e rosto inchado o canon visual decisivo do fantasma vingador japones. A xilogravura de Oiwa de Katsushika Hokusai da serie Hyaku Monogatari da decada de 1830 e as estampas de onryo kabuki de Utagawa Kuniyoshi popularizaram a iconografia. O romance Ring (Ringu) de Suzuki Koji de 1991, o filme Ring de Nakata Hideo de 1998 e Ju-on de Shimizu Takashi de 2002, junto com seus remakes americanos The Ring (Gore Verbinski, 2002) e The Grudge (Shimizu Takashi, 2004), globalizaram o J-horror e fizeram de Sadako Yamamura e Kayako Saeki as figuras canonicas do onryo do seculo XXI. As sequencias de The Ring de 2017, o remake americano The Grudge de 2020 e o filme K-horror The Wailing (2016) estendem todos a iconografia do onryo.

Fraqueza

A fraqueza do onryo reside na resoluçao da queixa (kaiwon) e em ritos formais de aplacamento (chinkon). O estabelecimento imperial do santuario Tenmangu em Kyoto em 919 para aplacar o onryo de Sugawara no Michizane e o modelo canonico de aplacamento do onryo, e os aproximadamente 12.000 santuarios Tenmangu por todo o Japao sao seus descendentes rituais. A cena final de aplacamento do onryo de Oiwa em Tokaido Yotsuya Kaidan tornou-se uma tradiçao cenica do kabuki. Ritos populares japoneses como o segaki do Obon, as oferendas de Ano Novo e os serviços memoriais budistas individuais (shimeyose, kuyo) servem todos como ritos de aplacamento do onryo. O J-horror moderno redefiniu o onryo como essencialmente inaplacavel: em Ring (1998), a maldiçao de Sadako continua mesmo apos seu corpo ser devidamente recuperado do poço e enterrado, e em Ju-on (2002), a maldiçao de Kayako esta ligada a propria casa, sendo a evitaçao a unica resposta possivel, tornando-se a conclusao canonica carregada de desespero do J-horror.

Significado cultural

O onryo nao e simplesmente um fantasma mas a imagem central da historia politico-religiosa japonesa. O culto goryo Heian do seculo IX, no qual os mortos politicamente derrotados retornavam como espiritos vingadores causando desastres, funcionava como mecanismo de auto-legitimaçao do poder politico japones; o aplacamento Tenmangu de Sugawara no Michizane e o caso canonico do rebaixamento politico compensado pela apoteose divina, e os aproximadamente 12.000 santuarios Tenmangu por todo o Japao sao sua heranza institucional. As onryo femininas das quatro grandes peças de fantasmas kabuki — Oiwa, Okiku, Otsuyu, Kasane — foram lidas pela critica feminista como a condensaçao sobrenatural da opressao social das mulheres e da violencia patriarcal da era Edo. O sucesso mundial de Ring de Nakata Hideo (1998) e Ju-on de Shimizu Takashi (2002) estabeleceu o J-horror como uma ala do horror mundial, e Sadako Yamamura e Kayako Saeki tornaram-se as figuras canonicas globais da iconografia de horror do seculo XXI. The Wailing de Na Hong-jin (2016) e The Curse of La Llorona de James Wan (2019) carregam influencia direta do J-horror.

Na cultura pop

Sugawara no Michizane goryo (845-903) — origem politica da iconografia do onryo japonesSantuario Tenmangu, Kyoto (919) — modelo canonico do rito de aplacamento do onryoConto dos Heike (Heike Monogatari, seculo XIII) — espiritos vingadores do cla Taira derrotadoTsuruya Nanboku IV, Tokaido Yotsuya Kaidan (1825) — Oiwa como canon kabuki do onryoKatsushika Hokusai, serie Hyaku Monogatari com Oiwa (decada de 1830) — canon visual ukiyo-eSuzuki Koji, romance Ring (1991), Nakata Hideo, filme Ring (1998) — J-horror Sadako globalizadoShimizu Takashi, Ju-on (2002) — Kayako como canon J-horror